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domingo, junho 13, 2010

LFVeríssimo: As noites de luar








13 de junho de 2010 | 0h 00



          Luis Fernando Verissimo - O Estado de S.Paulo

Uma guerra nuclear. Você é o único sobrevivente. Ou uma epidemia mundial: só você se salva. E aí?
- Aí, depende,
- Depende do quê?
- Depende de onde eu estaria, por exemplo.
- Uma cidade grande. Qualquer cidade grande.
- Só eu? Mais ninguém?
- Só você.
- Bichos?
- Nenhuma forma de vida. Só você. E então?
- Então, depende.
- Do quê?
- Teria eletricidade, por exemplo? Pra conservar os alimentos? Ou eu viveria só de não-perecíveis?
- Sem eletricidade. Sem luz. Sem aquecimento. Sem comida congelada. Sem gás.
- Quer dizer que eu teria que fazer fogo esfregando um pauzinho no outro?
- Ou entrando em supermercados e pegando caixas de fósforos.
- É mesmo! Eu poderia entrar onde quisesse e pegar o que eu quisesse, sem pagar e sem disparar o alarme na saída!
- Exato. E sem ser gravado pelas câmeras de segurança.
- Dando bananas para as câmeras de segurança!
- Isso.
- E atravessando a rua fora da faixa!
- Também.
- Estou começando a gostar. Mas vem cá, eu estaria completamente sozinho?
- Completamente.
- Sem nem um cachorro? Naquele filme do Will Smith ele tinha um cachorro.
- Sem nem um cachorro.
- Mulher, então...
- Nem pensar.
- Pode ser feia. Numa situação destas, não se escolhe.
- Nem pensar. Em compensação, você poderia andar na rua à vontade. Entrar em restaurantes finos só de cueca...
- Uma coisa que eu sempre quis fazer.
- Fazer xixi a céu aberto, onde desse vontade. Até em estátua de general.
- Bacana...
- Você seria inteiramente livre.
- Mas solitário.
- Mas livre. Nossos limites são os outros. Você viveria sem os outros. Portanto sem limites. Livre.
- Como o Robinson Crusoe na sua ilha?.
- Um Robinson Crusoe sem o Sexta-Feira e com um suprimento inesgotável de fósforos. Exato.
- Como Adão no paraíso.
- Perfeito. Um Adão sem nenhuma perspectiva de Eva. Primeiro e único.
- E as noites de luar?
- O quê?
- E as noites de luar?
- O que que tem as noites de luar?
- Eu iria compartilhá-las com quem?
- Está bem. Esquece. Eu estou lhe oferecendo a liberdade de um mundo vazio, de um paraíso restaurado, e você vem com pieguice. Esquece.
- Só o que me faltaria seria poder comentar as noites de luar. Um par de ouvidos para me ouvir, de um par de olhos compreensivos para concordar comigo. Só.
- Está bem, está bem. Você pode ter um cachorro.


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